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Sobre unhas, bruxos e hábitos
03/08/2017
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Ontem tivemos que engolir o arquivamento do processo contra o atual ocupante do posto mais alto da república. No melhor estilo Harry Potter, aquele-que-não-deve-ser-nomeado usou seus comensais da morte para assediar e ameaçar os demais ocupantes das cadeiras da assembléia legislativa. Neste caso porém, todos lá parecem ter uma simpatia pelas práticas e mordomias proporcionadas pelas magias proibidas, o que facilita muito o trabalho dos comensais. Para nós, sobrou o papel de sempre: trouxas.

O que me derruba, e parece por um peso gigante sobre minhas costas, é a horrível sensação de impotência que me acomete ao assistir a essa avalanche podre. Ela leva a esperança e a fé de que as coisas vão de fato melhorar, extinguindo a energia de movimento sempre que ela começa a surgir. Como comentou no Facebook um amigo meu advogado, “tá difícil…”

E é exatamente a ausência de fé, seja lá no que for, que nos impede de mudar a velha rotina de indignação com as atrocidades do país. Mas antes de seguir, preciso apresentar pra vocês o que aprendi sobre hábitos. Já volto com esse papo, hold that thought

Como funcionam os hábitos: um gatilho, dispara uma rotina que nos proporciona uma recompensa. Tem um livro inteiro sobre isso chamado “O Poder do Hábito” – recomendo! No livro, um dos exemplos desse loop é o da Mandy. Ela (seja ela quem for) rói as unhas. Primeiro vem um formigamento na mão (deixa ou gatilho) que a ela a pôr as unhas nos dentes (rotina), dando a ela uma satisfação e alívio (recompensa). Nosso cérebro, quando aprende esse ciclo, adota-o como função padrão e passa a reproduzir a rotina automaticamente, sem pensar. E, o pior, passa a ansiar pela deixa, em busca da recompensa. Por isso fazemos algumas coisas sem pensar ou sem perceber, como roer unha, pegar um cigarro ou levantar para um café.

Voltando para o nosso caso com a política brasileira, nossos gatilhos são as notícias, nossa rotina é reclamar (e fazer nada) e a recompensa é alguém que concorda conosco e que “não tem jeito não”. A cada novo gatilho, nos damos por satisfeitos em desabafar nosso ponto de vista no Facebook, na mesa do bar com amigos, ou no blog para o qual você (eu) escreve(o). Esse é o nosso hábito enquanto brasileiros. E nossa recompensa é que seguimos nossas vidas sem precisar sair de nossas rotinas confortáveis – mesmo quando não são.

Tem como mudar de hábito? Tem. É dificil, exige esforço e tempo – e por isso mesmo a fé de que as coisas vão melhorar pode fazer muita diferença. Mas tem como, sim.

O que a neurociência – e a prática de grupos como os alcoólicos anônimos – nos mostra é que a melhor forma de mudar um hábito é mudar a rotina. A deixa e a recompensa serão as mesmas, mas você pode mudar a ação. Por exemplo, em vez de levar às unhas aos dentes quando vier a deixa, Mandy pode enfiar as mãos no bolso ou coçar os braços. Acredite ou não, o autor conta que esse é um caso real e que, em um mês, ela havia perdido o hábito de roer unhas.

É claro que não estou sugerindo que a mudança que tanto desejamos no país virá em um mês. Mas podemos pensar em adotar uma nova rotina diante dos gatilhos diários nas manchetes dos jornais. E se todos nós passarmos a enviar um e-mail de apoio aos ministérios públicos que denunciam, ou mesmo um de cobrança para nossos deputados? Provavelmente levará o mesmo tempo que um post no facebook, com a diferença de que poderemos estar estimulando alguém que tem poder de fazer algo a fazer. Depois disso, poste o print do seu e-mail na sua rede social favorita e receba as curtidas e palminhas que merece. Desta vez, você terá ainda a satisfação de saber que tem mais chances de fazer diferença do que só com o post.

Preciso terminar esse artigo. Faço isso ainda com algumas coisas por dizer: (1) mudanças só são efetivas quando começamos por algo pequeno e conseguimos perceber pequenas vitórias; (2) as oportunidades que temos para transformar o desejo intangível de “fim da corrupção” em algo mais objetivo, que seja claro e simples para reivindicar; (3) teoria dos jogos e o problema da desconfiança; (4) a necessidade de melhorar a comunicação uns com os outros, saindo de nossas próprias verdades; e talvez mais algumas. Tudo isso está conectado de uma forma que eu levaria espaço demais para explicar – e provavelmente você não teria lido até aqui se eu o tivesse feito.

Termino este artigo, então, reconhecendo que provavelmente nossos e-mails para os poderes oficiais do país não nos levarão para Hogwarts. Mas, talvez, nosso novo hábito mostre para eles que sabemos da existência dos bruxos. E, muitas vezes, a sensação de estarmos sendo vigiados é suficiente para não mais roermos unhas.

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