bemvindo@startify.com.br (27) 3019-7996
O verdadeiro caminho das pedras
30/01/2017
0

A Rede Gazeta publicou no último final de semana uma série de reportagens sobre o setor de rochas ornamentais (mármore e granito). A série de reportagens apresenta, de forma comovente, uma realidade lamentável de um setor próspero, responsável por 10% do PIB do Estado. O belo trabalho feito pelos jornalistas revela que toda a riqueza – e beleza – das rochas produzidas por aqui perde um pouco do seu sentido. Não se pode relevar a dor de centenas de famílias que perderam parentes e amigos, mas é preciso aprender com essa situação, para que todo esse sofrimento não seja em vão.

Leia as matérias:

Extração de rochas cria vilas de orfãos e viúvas no sul do Estado

Um acidente por dia no setor de rochas do Espírito Santo

Vidas marcadas por acidentes de trabalho em pedreiras do Estado

Empresas investem em segurança para preservar vidas

 

As lições:

Fica claro que o problema do setor é sistêmico e complexo, com parcelas diferentes de responsabilidade. Seria muito bom se eu pudesse apontar um culpado e colocar sobre ele toda nossa indignação. Seria também ingênuo e simplista da minha parte fazer isso. São muitos os incentivos dos poderes públicos para que alguns explorem os recursos naturais de forma clandestina e irresponsável.

Em parte, esses incentivos são por falta de pessoal para fiscalizar mais de 1800 empresas registradas no setor. Geralmente, as atividades acontecem em localidades distantes e de difícil acesso no interior do Espírito Santo – sem contar as clandestinas que mencionamos. Além disso, “a “morosidade” para se conseguir licenças ambientais serve de estímulo à clandestinidade”. O próprio representante das empresas afirma que “A legislação mineral e ambiental é morosa. O problema são essas empresas que trabalham em paralelo, pois a fiscalização é fraca”.

Outro incentivo é a demora e a leveza das punições aplicadas pelo judiciário. Em todo o Brasil, acidentes de trabalho custam às empresas R$ 10 bilhões. Em comparação com os Estados Unidos, são quase 20 vezes menos do que os US$ 62 Bilhões pagos em indenização em 2013. De certa forma, e analisando de forma fria e puramente financeira, isso incentiva empresas a fazerem gestão dos danos, em vez de investir em prevenção. Uma das matérias da Rede Gazeta afirma:

“Como punição pela morte de Adriano, a empresa firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se comprometendo a doar R$ 35,4 mil a uma entidade local e a recolher R$ 6 mil ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), além de dar treinamento aos funcionário e manter serviço de medicina e segurança do trabalho em suas instalações.” (matéria).

Isso sem falar nos casos que se resolvem por quantias irrisórias uma vez que os parentes das vítimas não podem aguardar os casos se arrastarem por anos até terem um desfecho na justiça.

No entanto, e como já disse aqui, a ausência e lentidão do setor público em cumprir o seu papel não podem ser unicamente responsáveis. É inadmissível que alguém que se intitula empresário não seja capaz de prover as condições mínimas de segurança para seus empresários. Um cinto de segurança para trabalho em altura, por exemplo, custa menos de R$ 70. Isso é menos de 4% do valor cobrado pelo metro cúbico de granito. E os acidentes com queda representam 13% do total de acidentes.

O que mais me surpreende, no entanto, é que tantos outros acidentes são causados pura e simplesmente por falta de planejamento das atividades, ou por má condição dos equipamentos. Motivos que, mesmo do ponto de vista frio e puramente financeiro, são nocivos à produção e geração de riqueza. A série da Rede Gazeta relata alguns dos acidentes que levaram à mutilação ou à morte das vítimas:

“Até que um dia a quantidade de pólvora socada foi grande demais, e a pedra caiu em cima do operário após explodir.”

“Esmagamentos, choques elétricos e uso de explosivos caseiros estão entre as principais causas de mortes e amputações.”

A falta de racionalidade e imediatismo por trás das decisões que levam aos acidentes são motivo de indignação. Existem métodos simples e baratos para prevenir esses acidentes. E, a impressão que dá, é que as pessoas ainda estão perdendo suas vidas por falta de conhecimento. Ferramentas de organização do trabalho que exigem pouco ou nenhum investimento como 5S, padronização, e a presença da liderança no chão de fábrica poderiam evitar boa parte desses tristes casos.

O Espírito Santo detém o título de maior produtor brasileiro de rochas, daqui saem 80% das exportações“. Esse número é motivo de orgulho para nós capixabas. No entanto, precisamos parar de manchar esse orgulho com as histórias tristes que li neste final de semana. Como já disse em outro texto, não dá mais para culpar e esperar ações do setor público. É hora de agir. Ainda mais quando essa mancha é de sangue.

Comentários